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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Anjo!

Talvez que o anjo esquecido,
o anjo da poesia,
se tenha de mim perdido,
sem reparar que o fazia.
Por isso me faltam asas

e me sobejam as penas
de um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
até ao anjo perdido.
O anjo de mim esquecido,
que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
aonde queria voar!
Não estava agora a rimar
versos de asas cortadas.
voava junto de si.
Assim fico aonde me vê.
Mesmo pregadinha ao chão
com asas de papelão
e sem entender porquê.
Pois a uns faltam-lhe asas
mas por ter asas cortadas
sofrem uns e outros não?
Eu tenho sofrido muito
nos meus voos ensaiados
que ao querer sair do chão
ficam-me os pés agarrados,
E por falar dos pés
Com versos de pés quebrados
perdoe lá a quem os fez
pelo mal dos meus pecados.
Só os fiz por timidez
que tenho em me dirigir
a quem tem por lucidez
razão para distinguir
o bom e o mau Português.
Assim à minha maneira
aqui venho responder
desta forma tão ligeira
que a sério não pode ser!

Amália Rodrigues.
Talvez que o anjo esquecido,
o anjo da poesia,
se tenha de mim perdido,
sem reparar que o fazia.
Por isso me faltam asas
e me sobejam as penas
de um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
até ao anjo perdido.
O anjo de mim esquecido,
que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
aonde queria voar!
Não estava agora a rimar
versos de asas cortadas.
voava junto de si.
Assim fico aonde me vê.
Mesmo pregadinha ao chão
com asas de papelão
e sem entender porquê.
Pois a uns faltam-lhe asas
mas por ter asas cortadas
sofrem uns e outros não?
Eu tenho sofrido muito
nos meus voos ensaiados
que ao querer sair do chão
ficam-me os pés agarrados,
E por falar dos pés
Com versos de pés quebrados
perdoe lá a quem os fez
pelo mal dos meus pecados.
Só os fiz por timidez
que tenho em me dirigir
a quem tem por lucidez
razão para distinguir
o bom e o mau Português.
Assim à minha maneira
aqui venho responder
desta forma tão ligeira
que a sério não pode ser!

Amália Rodrigues.

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